07 junho 2017

árvore, caroço, seiva.







ao volante, nos oitocentos quilómetros de ida e de retorno numa viagem para sul, pensei que os hectares de terra a monte, há mais de trinta anos, perto da lousã, deveriam ser uma escolha e não encargo. pensei que se pode plantar árvores, zelar-se por elas, e deixá-las medrar, sem pressa, como quem deixa que o tempo faça as pessoas, as frutas, o vinho. como diz um amigo velho para lá do marão, "metade do sabor é o tempo que o faz nas coisas já depois quando estão fora da árvore que a deu". pode começar-se uma coisa e deixá-la a fazer-se por si, mesmo quando implica atenções, cuidados, consumições. pode ser-se mútiplo, não se estar inteiramente num só livro, numa só terra, num só coração. à conta disso, ando há anos multiplicada (ou dividida?) numa vida dupla, entre uma profissão e um doutoramento. pela falta desta terceira via, talvez nunca inteiramente nem num lado, nem no outro - sempre com razão aquele senhor me repetiu várias vezes que há sempre três questões, repetindo hegel, marx e os seguintes. depois pensei no que será plantar-se uma árvore, um pomar, até parecer um mar imenso, e enfrentar-se uma obra acabada de começar e saber-se que nunca se verá a obra sequer começada deveras, a ponto que se note, ou que se verá, quando muito,
a meio, mas nunca finda, de forma inteira. as obras que sabemos que vamos deixar por terminar fazem-nos todos os dias, lembram-nos o quanto nos trazemos pela metade e isso poderá ser mote que nos move, em vez de verso que nos derrota. penso numa torre de planta circular, com janelas aos quatro ventos, que serve de miradouro para ver a evolução de uma obra, para se lembrar que uma obra inacabada nos ergue do chão até ao último dia, para termos noção da importância do contributo de todas as pedras na construção de um todo. tal como um livro numa biblioteca.




13 outubro 2016

muito cedo, demasiado tarde

https://www.youtube.com/watch?v=gw9fKuymA0I
https://www.youtube.com/watch?v=hDjtNsPLPK0

o primeiro chama-se "in the mood for love" e é dos filmes mais tristes que vi em toda a minha vida.
o segundo nunca o vi, mas não tarda (amiúde oiço as bandas sonoras antes de conhecer os filmes: assim com "a eternidade e um dia", assim com "2046", assim também com "mudar de vida".) este segundo traz uma legenda que corrói como a ferrugem : "não serve de nada encontrar a pessoa certa se o momento não é o adequado. o amor é uma questão de tempo". serve para se pensar que se pode pouco, quando a coragem não é comum. retorno a marguerite duras, na abertura de "l'amant" - "plutôt dans ma vie il fût trop tard".ou muito cedo. nunca percebo, nunca acerto. haja livros que nos segurem.



12 outubro 2016

o que um quadro faz


tenho deitado mais os olhos à pintura do que o costume. talvez porque a fotografia me relembre a minha incapacidade para o desenho, talvez porque a pintura seja a fotografia sobreposta de vários dias e várias noites, meses a fio, reagindo a livros, a gente, a música, à temperatura, às horas de sol do dia. este quadro de almada negreiros, a par do "femme au mirroir" e "o pintor e a modelo", de picasso, trazem-me a pensar, pela acabada síntese que fazem de tanta coisa: do que é um amor que partilha mesa, pintura, uma fímbria de luz, livros lidos a par e o mais; do que é uma forma de estar na vida, a daquela mulher sentada no chão, a varanda nas costas, um vaso por companhia, a olhar com melancolia e serenidade a vertigem dos dias, ainda assim; do que é uma postura metodológica perante tanta coisa - quem fotografa, lê, desenha, ou o mais a preservar ou não a distância perante o que fotografa, lê e o mais. ficar sempre a pensar se os pés do pintor e da modelo se tocam por detrás do cavalete que esconde a resposta. e porque é a mulher que é pintada e o homem o pintor. e andar nisto há anos já. um dia escrevo um argumento para um documentário, como uma sequência de quadros e de fotografias e de livros e de músicas. o que lhe chamar? "mulher em construção".

25 setembro 2016

"le grand amour fou m'emporte comme une vague"

ir à Apúlia para ter colo : sentir o cheiro do sargaço que fazia a areia da praia parecer terra de dentro da estrada, ouvir o mar em maré vaza e lembrar sérgio godinho e sonhar com a maré cheia, e tirar uma fotografia para mostrar o que é ser-se uma mulher que lê porque precisa, que fotografa porque não sabe desenhar e porque não consegue ler a sua própria letra, e que escreve para arrumar a cabeça e mandá-la calar e que procura conceder-se desarrumar o coração.


https://www.youtube.com/watch?v=pfYUQJzDeOc

10 junho 2016

coração-de-boi

pudéramos tirar o coração do peito e o passá-lo para trás das costas, para fora de nós, onde não o veja quem nos olha - porque deixando de ribombar de fúria ou de felicidade não nos denuncia  - , e leváramos os dias de forma mais contida, acertada, domada, por menos transparente? contar de dez para zero, respirando fundo entre cada número também costuma ajudar, mas deixa quem nos olha e quem nos ouve impaciente e a  pensar que a pausa que nos põe a falar com o coração (a dizer-lhe : abranda, não latejes, não saias pela boca, não me rebentes na mão) ou é premeditação quase assustadora de uma ameaça para levar a sério ou faz esperar uma frase esmerada como um verso. e, no entanto, e o que tem sido mais frequente, essa ponderação dirigida ao coração pode só gerar um silêncio que, de tão denso, consegue medir-se e pesar-se em pacotinhos de quarto de quilo, como me diziam em ganapa que se podia medir o amor.pudera pôr-se o coração para trás das costas e a coisa resolvia-se. mas é um coração-de-boi e notava-se muito.


14 maio 2016

saltos altos

é raro pôr um par de saltos :pu-los no funeral do meu pai, tal como o vira pôr gravata no funeral dos meus avós, ele que deixara de as usar a 26 de abril de 74; pu-los no casamento da minha amiga mais alta mas nem assim lhe cheguei, e pu-los duas ou três vezes nos 5 dias de férias do verão passado, umas sandálias de borracha que me lembraram que havia um par de pés bonitos dentro das botas de obra que enchera de cimento e lama numa obra que eu cá sei (embora agora não se note nada, nem na obra, nem nas botas, que as lavei).
não preciso da altura que os saltos me acrescentam, nem da elegância que (não) me conferem, nem servem para me levantar a moral, nem mesmo nos dias que começam com alguém a querer-nos sentir mais baixas do que somos. a vantagem séria de um par de saltos é o facto de poderem ser um arma de arremesso ou de ataque. mas não preciso deles nos pés.

o video termina de uma forma curiosa : se tirarmos os saltos talvez possamos começar a correr. talvez seja por isso que se transmite a ideia que é importante que as mulheres usem saltos em nome da elegância, quando afinal talvez objectivo seja o de as fazerem correrem menos, seja quando fogem, seja quando perseguem quem que fugir.

não quero que o momento alto dos meus dias seja aquele em que desço de um par de saltos que me aperta os pés e me constrange a voz. deve ser por isso que mesmo que só queira, de momento, andar, traga sempre nos pés sapatos, botas ou sapatilhas com que posso deitar a correr : a correr daqui para fora, a fazer correr na minha frente quem, nem com saltos, fique crescido, a fugir de quem por muito que corra nunca na vida me apanhará.


https://www.facebook.com/PlayGroundMag/videos/1144499832256558/

27 março 2016

gallo rojo

volto a esta música vezes sem conta, pela voz, pelos arranjos, mas muito mais pelo recado de luta que encerra.dois galos que se debatem num terreiro e o mais novo, vermelho, aguerrido ainda que de menor porte, não se nega ao combate com o que lhe faz sombra - um grande, mas o outro valente. na quinta-feira vou ver esta mulher encher o teatro circo em braga. tinha um alinhamento inteirinho para lhe propor, mas o que venha será mais ainda do que lhe peça. há mulheres que nos servem de exemplo - pela multiplicidade de registos, pela generosidade com que abraçam projectos, pelo empenho nas denúncias das questões sociais. sei quem me lembra, sei o que me inspira.
https://www.youtube.com/watch?v=U3ZCanVRFZQ

dieu est un fumeur de havanes

discutíamos tudo, voltados ao Tejo, até aquele grande plano que transformara, insistia, "um lameiro num jardim". os nossos almoços começavam ao meio-dia e acabavam ao lanche. trocávamos livros (trazia-lhe livros, veleidade minha), evocava memórias, listava conselhos.guardo todos, especialmente um em que me sublinhava, amiúde, que "não há decisão nenhuma que não se possa tomar numa noite atravessada em branco sentado ao relento numa varanda." na altura, ainda se podia fumar nos restaurantes e ainda não tinha chegado o primeiro dos três cafés com que fechávamos o almoço e já havia no ar o odor dos charutos cohiba. durante anos, mesmo até depois da sua ida, o seu nome ficou gravado na agenda do meu telefone com o nome "Jota Cohiba". e mesmo depois de se ter ido embora, olhava para o relógio às cinco da tarde, hora em que volta não volta chamava por mim e perguntava : "que andas tu a fazer, rapariga? ao menos, escreve, escreve." há dias, cruzei-me com um livro de Inês Pedrosa que lhe dera e que olhara com desconfiança, "fazes-me falta". nele evoca-se uma frase inscrita numa parede num café no centro de Paris, que advertia "dieu est un fumeur de havanes." acontece-me ir na rua e sentir o cheiro dos charutos cohiba ou das cigarrilhas mini-bronco. volto-me e não está lá ninguém; sorrio-me, ainda assim.